Minha Condenação

Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados” (Mt 7.1-2  “Não julgar para não ser julgado”. Seremos julgados por quem? Por Deus? O fato de nós julgarmos o próximo, nos tornamos juízes de nós mesmos?
Todos nós conhecemos a famosa frase: “Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados” (Mt 7.1-2). Essa frase sempre fez muito sentido para mim; porém, percebi que a minha interpretação acerca dela era bastante polarizada. Essa constatação ocorreu numa sessão de constelação familiar, quando pude participar como observador do fenômeno.

Antes daquela sessão, pelo menos conscientemente, eu costumava julgar apenas as pessoas distantes do meu convívio social. Eu julgava o político desonesto; o médico oportunista; o sacerdote enganador etc. Contudo, depois da experiência fenomenológica, percebi claramente que a toga de juiz estava sobre mim e que os meus réus não eram apenas os distantes do meu convívio, mas principalmente os que sentam à mesa comigo, os da minha casa. Um exemplo claro disso foi quando percebi que julguei, por diversas vezes, o meu pai. Minha visão a respeito dele era: pai e marido ausente, despreparado e viciado em drogas ‘lícitas’. Ele viveu muito pouco; apenas trinta e três anos, mas o pouco que viveu foi o suficiente para eu bater o martelo sobre ele várias vezes.

Qual foi a minha condenação por julgá-lo tanto? Reproduzi os mesmos erros durante muito tempo com os meus filhos e com a minha esposa. Tornei-me um pai e marido ausente, despreparado e viciado em trabalho. Quem me condenou? Eu mesmo, pois quando julguei o meu pai, esse julgamento não foi contra ele, mas contra mim. O meu julgamento foi a arma para o meu próprio juízo. É o efeito bumerangue! Essa dinâmica é tão certa quanto dois e dois são quatro. Julguei o meu pai e fui condenado natural e diabolicamente a reproduzir os mesmos comportamentos dele. Depois dessa constatação, imaginei que a única forma de não ser condenado é não julgar, pois é o veneno que quero dar para o outro, mas quem vai tomá-lo sou eu.

“Não julgar para não ser julgado”. Seremos julgados por quem? Por Deus? Sim e não, como lemos acima. Sim, porque creio que Deus é e será juiz de todos e sobre todos. E não, porque o fato de nós julgarmos o próximo, nos tornamos juízes de nós mesmos. Tomara que eu esteja expondo as minhas feridas crísticas e não as minhas chagas narcísicas.

Inteligente e sábio é o cachorro. Depois de ser ofendido pelo seu dono basta ser chamado com um sorriso sem graça por seu agressor que ele volta com o rabinho abanando. Ele sabe, pelo menos instintivamente, que o seu inimigo não é necessariamente o seu dono, mas ele mesmo (caso adote uma postura diferente que não seja abanar o rabo). Já nós, seres humanos, quando somos ofendidos, revidamos com a mesma moeda; é pedra por pedra; olho por olho ou dente por dente. É como diz o nosso amigo Chaves: “Ai que burro, dá zero pra ele!”. A nossa nota é zero mesmo, pois quando adotamos a dinâmica do olho por olho estamos arrancando o nosso próprio membro.

O julgamento traz a nós mesmos remorso, amargura e juízo. Quando deixarmos de julgar o nosso próximo teremos a oportunidade de seguir em frente. Se isso fizer sentido para você, pare de julgar a sua mãe; pare de julgar o seu filho; pare de julgar a sua esposa; pare de julgar o seu marido; pare de julgar aqueles que se sentam à mesa contigo; pois eles são o que são, simplesmente. Muito provavelmente é o melhor que eles conseguem ser; muito provavelmente é o melhor que eles conseguem fazer. Logo, não há nada que você possa fazer para mudá-los, muito menos julgá-los.

Jesus se portou semelhante ao cachorro que abana o rabo. Quando Ele estava sendo crucificado, disse: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo” (Lc 23.34). O Filho de Deus, na cruz, no auge de seu sofrimento e dor, não abriu a boca para julgar ninguém. Ele sabia que naquele momento o seu julgamento seria veneno para ele mesmo!

Papai Vicente! Onde quer que você esteja, me perdoe por ter lhe julgado tanto! Como isso fez mal para mim mesmo e, por efeito cascata, à minha família também! Aos meus amigos, conhecidos e demais membros de minha família; eu peço a vocês também perdão, pois não foram poucas as vezes que os julguei. A prova disso é que sou igual a vocês em muitos aspectos! E ao meu Deus, que é e será juiz sobre mim e sobre toda a humanidade, tenha misericórdia de nós, pois não sabíamos o que estávamos fazendo. Agora que sabemos, não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos de nós mesmos. Amém!

Autor: Pastor Uelton Ricardo
Primeira Igreja Batista de Brasilia 

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